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Quando aquela doente internada na Unidade de Cuidados Intensivos Neurocirúrgicos do Hospital Garcia de Orta (HGO), em Almada, disse que queria levantar-se e pediu que alguém a acompanhasse à casa de banho foi um espanto. Estávamos em dezembro passado e, em menos de uma semana, Amélia Sá, 57 anos, havia sido submetida a uma cirurgia para desobstruir uma carótida, artéria responsável por levar sangue oxigenado ao cérebro, e pouco depois sofrera um AVC (Acidente Vascular Cerebral).

Foi logo naquela unidade de cuidados intensivos que a paciente iniciou a fisioterapia, com estimulação neurossensorial através de música, para facilitar a ativação dos movimentos afetados. Mas não passava pela cabeça de ninguém o que ela solicitou a quem a acompanhava à casa de banho: “’Agora vamos dançar uma kizomba; a música está na minha cabeça.’ E dançámos as duas”, lembra a doente que a todos pasmou.

A alentejana, de Santiago do Cacém, tinha o perfil certo para integrar uma experiência que será inovadora no Serviço Nacional de Saúde, levada a cabo, desde março de 2017, por uma equipa de quatro fisioterapeutas do HGO: a utilização da música como estímulo para a recuperação motora de doentes que sofreram aneurismas ou AVC. Quando depois encontrámos a franzina Amélia Sá, ela dançava, com bamboleios ritmados, a kizomba Não Me Toca, de Anselmo Ralph. Saiu de casa vestida com umas calças justas de napa preta e rodopiava sobre uns sapatos de salto alto. Não fosse o ambiente hospitalar daquela sala e dir-se-ia que Amélia bailava numa “danceteria”, como chama aos locais que frequentava religiosamente nas noites de sábado, e não numa das duas sessões semanais de terapia no HGO, de uma hora cada.

Amélia estava já à beira de receber a alta hospitalar. Mas, no início, as fisioterapeutas tentaram que a paciente dançasse descalça ou de ténis. Nada feito. Amélia diz só ganhar a “sensualidade” de que precisa para bailar com sapatos de salto alto. E acabou por funcionar. Era assim calçada que mostrava uma “articulação bem alinhada e posicionada, e uma função neuromuscular também íntegra”, explica Cristina Vidal, a porta-voz (e professora na Escola Superior de Saúde Egas Moniz) da equipa de fisioterapeutas do HGO.

A música é uma “droga”

É um “movimento automático”, no caso a dança, que se tenta acionar com a música. “Mas só o podemos fazer em pessoas que, previamente à lesão cerebral, já executavam e tinham aprendido esses movimentos de forma consolidada”, esclarece Cristina Vidal. Quando isso não acontece, tudo “demora muito mais tempo e é bem mais difícil de ativar”.

No que respeita aos “dançarinos”, há a junção de duas teorias. Uma “é a ativação dos movimentos automáticos, que foram sendo conhecidos na área da Neurociência, sendo possível estruturar por essa via”, diz Cristina Vidal; outra resultou da experimentação clínica: “Percebemos que podíamos aplicar um estímulo enquanto som rítmico e depois a música, que tem de ser selecionada de acordo com aquela que as pessoas ouviam com muita frequência – apenas dessa forma se consegue ativar o circuito que já está ‘gravado’ no cérebro.”

Divorciada, Amélia Sá mostrava-se ansiosa por regressar aos “dias de ginásio” (leia-se noites de sábado a dançar até às tantas), de onde sai “completamente renovada”, para voltar à venda de peixe, na banca que tem no Monte da Caparica, e à condução do seu carro. Mas está rigorosamente vigiada pela filha, Rita, 30 anos,técnica de Radiologia. “Agora sou eu a bebé lá de casa”, brinca a alentejana: a 6 de março, o seu bolo de aniversário só teve uma vela com o número 1. “Será sempre o primeiro dia do resto da minha vida.”

Todos nós somos capazes de sentir o poder da música – exceto quem sofre de amusia e, por isso, é incapaz de reconhecer ou reproduzir qualquer nota. Melhora-nos o humor, dá prazer, remete para memórias (umas agradáveis, outras nem por isso). Praticamente todas as áreas do cérebro se acendem ao soar os primeiros acordes. Uma pequena parte do cérebro, no lobo temporal direito, descodifica a base da melodia e a harmonia, o cerebelo processa o ritmo, os lobos frontais interpretam a parte emocional. Bebés, ainda na barriga das mães, reagem às notas musicais e até chegam a mostrar preferências. A música ativa o centro de recompensa, tal como as drogas ou o chocolate. E há mesmo quem não viva sem ela.

Qualquer pesquisa no Google sobre os efeitos terapêuticos da música devolve milhares de resultados, mas muito pouca coisa tem validação científica. “Quando se fala em musicoterapia, estamos a referir-nos a algo muito vasto, que vai desde o ato de pura e simplesmente ouvir música até ao pôr um doente a tocar”, nota o neurologista do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Joaquim Ferreira, que tem dedicado atenção especial enquanto médico e investigador às doenças do movimento. “É um tema da moda”, admite. No entanto, continua, “a evidência científica acerca dos benefícios terapêuticos da música ainda é muito frágil”.

O ritmo e os disparos no cérebro

Apesar disso, os últimos estudos científicos vão demonstrando que a música tem poder na cura. Num artigo publicado em 2015 na revista Frontiers in Neurology, o psiquiatra e neurologista Alfredo Raglio faz um balanço de tudo o que já se sabe neste campo e divide os efeitos em duas áreas: psicológica e motora. “O ritmo tem um papel crucial na reabilitação, aumentando as ligações entre os sistemas auditivo e motor”, escreve o autor, do departamento de Saúde Pública da Universidade de Pavia, Itália. “O som, ritmado, funciona como um desbloqueador da marcha”, clarifica Joaquim Ferreira.

Estudos baseados em ressonância magnética funcional indicam que este efeito se dá pelo estímulo da atividade do putâmen, uma estrutura localizada na parte frontal do cérebro, envolvida na regulação do movimento. No artigo, especula-se que o ritmo possa compensar a falta de estimulação dopaminérgica que está na base da doença. Mais do que funcionar como um desbloqueador, o ritmo musical também pode melhorar a velocidade, a frequência e o comprimento da passada, a coordenação entre os membros, o controlo da postura e o equilíbrio.

A equipa de fisioterapeutas do HGO (a doutorada Cristina Vidal, 45 anos, e as mestras Cláudia Costa, 35, Ana Sequeira, 48, e Sofia Pinto, 45) que iniciou o projeto da música e da dança como complemento ao tratamento tem resultados promissores para desenvolver técnico-cientificamente. Indicadores recentes, com ressonância magnética funcional, indicam que a simples audição de um ritmo aciona as áreas motoras do cérebro. “Já a música parece conseguir potenciar essa ativação neural, mais relacionada com os movimentos automáticos”, diz Cristina Vidal. Resumindo: “Quando somos expostos a sons rítmicos, como a música, podemos mais facilmente desencadear o movimento automático da dança, desde que previamente aprendido antes da lesão cerebral, porque os neurónios com o ritmo induzido sincronizam 
e fazem disparos em simultâneo.”

Braindin Júnior, um guineense de 35 anos, que sofreu um AVC, parecia um daqueles casos de longuíssima e difícil recuperação. Até que a equipa de fisioterapeutas do HGO descobriu o gosto de Braindin pelo samba. Ele veio para Portugal aos 18 anos, para estudar, mas acabou a trabalhar como servente na construção civil. Em 2006, tentou melhor sorte no Brasil, em São Paulo, vendendo roupa numa banca de rua. Regressou a Lisboa em 2008, por motivos que não quis explicar, embora o seu sorriso dissesse sem palavras que viveu dois bons anos na capital económica brasileira. Mais do que essa expressão, porém, demonstrou-o o impulso para se locomover mal as fisioterapeutas puseram a tocar um samba rasgado, vigiando-o nos titubeantes passos de dança, uma de cada lado. Há dias, Cristina Vidal deu-nos por telefone a notícia de que Braindin teve alta do internamento hospitalar.

O som é um regulador emocional

Num estudo feito na Universidade do Utah, publicado no mês passado no The Journal of Prevention of Alzheimer’s Disease, os investigadores examinaram o cérebro de pacientes com demência, para observarem as regiões que se acenderam quando estes ouviam excertos de 20 segundos das suas músicas preferidas, alternando-os com blocos de silêncio. Ao comparar as imagens em cada uma das situações, torna-se evidente que, enquanto os doentes ouviam a música, todo o seu cérebro estava ativo e em comunicação. Assinalando o facto de o estudo incluir apenas 17 pacientes, Norman Foster, coordenador do trabalho, disse em comunicado que “a linguagem e as vias da memória visual vão sendo danificadas à medida que a doença avança, mas programas personalizados de música podem ativar 
o cérebro, principalmente no caso de pacientes que estão a perder o contacto com o ambiente à sua volta”.

No Campus Neurológico Sénior, uma unidade de saúde privada, na região de Torres Vedras, dedicada a patologias neurológicas, a música é usada como tratamento, quando tudo o resto já falhou. “Colocamos uns auscultadores nos doentes, com música do seu agrado, e em alguns casos temos benefícios”, relata Joaquim Ferreira. “Usamos como estratégia para melhorar a agitação e a irritabilidade”, continua. “Trata-se de benefícios a nível comportamental, o que é diferente de uma melhoria cognitiva. Além disso, não sabemos se as vantagens advêm da música em si ou meramente do facto de os auscultadores e a própria música bloquearem os ruídos exteriores”, nota. Mesmo assim, o médico admite alguma evidência em casos de demência, que podem, no entanto, ser equiparados ao benefício de pôr os doentes a cozinhar, refere, com base num estudo que comparou as duas situações.

Na doença de Parkinson – uma degenerescência progressiva dos neurónios dopaminérgicos que provoca disfunção relacionada com o movimento, manifestando-se em tremor e rigidez – já se registam vantagens evidentes. Nestes casos, já não existem dúvidas de que a música pode ter um efeito positivo. A par dos problemas motores, 
a doença vem, com frequência, acompanhada de efeitos psicológicos, com a depressão e a ansiedade à cabeça.

Os estudos que avaliam o efeito da música a nível psicológico são ainda mais escassos e menos definitivos. 
E não se sabe se os efeitos positivos registados, ao nível da depressão e da ansiedade, estão relacionados exclusivamente com a música e não dependem também da interação entre o terapeuta musical e o paciente. “O som é de facto um importante meio de comunicação, principalmente num contexto não verbal, promovendo a regulação emocional”, resume Alfredo Raglio.

Diferente é aprender música – e aí, sim, existe comprovadamente um efeito poderoso no cérebro, equivalente ao de conhecer uma segunda língua. Já se sabia há algum tempo que os músicos tinham mais facilidade no cálculo mental, a memorizar um número de telefone ou uma lista de tarefas. Agora um estudo de Claude Alain, do Instituto de Investigação Baycrest Rotman, em Toronto, Canadá, vem explicar porquê.

É tudo uma questão de poupança de recursos. Isto porque o funcionamento do cérebro se torna mais eficiente, fazendo menos esforço para completar uma tarefa que envolva a memória. “Os músicos e as pessoas bilingues precisam de menos esforço para fazer a mesma tarefa, o que também pode protegê-los do declínio cognitivo 
e atrasar o aparecimento da demência. As experiências 
de cada pessoa, seja a aprender a tocar um instrumento musical seja outra língua, podem modelar a forma como o cérebro funciona e que ligações as usadas”, explicou o autor ao jornal The Independent.

Amor e kizomba

Ninguém cantou tanto, e com tanto fundamento, o poder da música como o neurologista, investigador e autor de origem britânica Oliver Sacks (que faleceu há três anos). Com um vasto trabalho em doenças neurológicas e demência, que descreveu com mestria nos seus livros, um deles adaptado ao cinema com o filme Despertares, o médico fez várias experiências em que usou a música, e a memória desta, para tirar pacientes de estados letárgicos.

Se não tivessem a chancela de Sacks, os vídeos que circulam na internet, com as experiências feitas em lares de terceira idade, podiam parecer encenação. Vê-se idosos imóveis, sem expressão, de cabeça baixa e olhos semicerrados a regressarem à vida, com olhos bem abertos, sorriso na cara, a cantarolar, ao som dos primeiros acordes. O efeito é tanto mais visível quanto maior a ligação que o paciente tem à canção que lhe é posta nos ouvidos. “Todos, mas mesmo todos os doentes, respondem à música, especialmente a canções antigas”, comenta num dos vídeos, feito a propósito do seu livro Musicofilia, em que conta histórias tão bizarras quanto surpreendentes, como a de um homem cuja memória tem a duração de apenas sete segundos, exceto quando se trata de música. “A lucidez e a expressão do prazer podem durar algumas horas, nas quais a pessoa recupera a sua identidade”, relatou Sacks.

Do domínio do inverosímil é a história de Antónia Brito. Como é possível que, à nossa frente, esta ribatejana de 67 anos, dance com tamanha elegância a kizomba Mamã Falou, do angolano Nelo Carvalho, de passos mais tradicionais (leia-se “sem ousadias”)? Antónia tem como par o marido, o cabo-verdiano Francisco Brito, 65 anos, e o requinte com que volteiam por aquela sala do HGO fascina quem assiste.

Há motivos fortes para a equipa de fisioterapeutas ter trazido ao testemunho da VISÃO a desenvoltura de Antónia. Em janeiro de 2017, sofreu um aneurisma. Um mês depois, saiu bem do hospital. Mas, passados dois meses após a alta, teve um AVC e foi submetida a uma intervenção neurocirúrgica. Antónia, porém, não se mexia, “os movimentos eram descontrolados”, recorda a própria. Uma das fisioterapeutas aproximou-se da sua cama na enfermaria e instigou-a: “Sei que a senhora dança muito bem. Quero aprender a dançar kizomba e a senhora vai ensinar-me.” A ribatejana lembra-se de que fez “uns gestos apatetados”, mas o certo é que se levantou. E o que se seguiu resume-se numa frase de Antónia: “O uso da música na minha terapia foi uma das principais coisas que me deram forças – fazia-me feliz, porque podia controlar os movimentos.”

Antónia serviu como empregada interna em casas fidalgas e em restaurantes. Francisco veio com 21 anos da Cidade da Praia para Portugal, a fim de estudar na Escola Comercial e Industrial de Setúbal, mas trabalhava ao mesmo tempo na construção civil e desistiu dos estudos. O casal, que tem dois filhos e uma filha, com idades entre os 41 e 35 anos, conheceu-se na cidade sadina, num… baile. “Dancei uma kizomba com ele, a Boas Festas, do Luís Morais, e o Francisco perguntou-me: ‘Onde é que aprendeste?’ Respondi-lhe que não sabia. ‘Aprendi agora contigo.’” Estão juntos há 43 anos.

 

 

Sem efeitos secundários

A evidência científica ainda é ténue, mas alguns estudos têm mostrado que, além do bem-estar e do prazer que proporciona, ouvir música pode ter efeitos terapêuticos em diversas áreas, sobretudo ao nível do comportamento

Melhoria 
no equilíbrio – Para pessoas com mais de 65 anos, as quedas são um assunto grave. Num estudo de 2011, que envolveu 134 homens e mulheres, montou-
-se um programa de treino de caminhada e de movimento coordenado com música. 
Ao fim de seis meses, o grupo dos “bailarinos” registou melhorias ao nível da marcha e do equilíbrio, com menos 54% de quedas.

Recuperação 
de um AVC – Ainda não se sabe bem porquê, mas ouvir música contribui para a recuperação de algumas capacidades, após um acidente vascular cerebral. Verifica-se uma melhoria na memória verbal 
e na atenção. 
A investigação foi feita em 60 pacientes, internados após um AVC, sujeitos a três tipos de intervenção: música, audiolivro e tratamento normal. Os autores do trabalho não conseguiram perceber se este efeito benéfico se deveu a uma ação direta no tecido danificado ou se está relacionado com 
o ânimo e a motivação.

Diminuição 
do risco cardíaco – Pacientes internados numa unidade de cuidados intensivos, tendo sofrido um ataque cardíaco nas últimas 72 horas, foram divididos em dois grupos: uns ouviram música clássica, outros receberam o tratamento rotineiro. Monitorizados 
ao longo de 20 minutos, verificou-se que, assim 
que a música começou, 
o ritmo cardíaco diminuiu, 
bem como a respiração 
e o oxigénio necessário. Este efeito benéfico durou, pelo menos, uma hora após o fim da audição. Uma análise psicológica também demonstrou haver menores níveis de ansiedade entre 
o grupo de pacientes que ouviu os clássicos.

Preparação física – Não será novidade para ninguém se dissermos que ouvir música, enquanto se pratica exercício físico, ajuda. Provavelmente porque torna o sacrifício mais suportável. Melhora a resistência na passadeira e aumenta a capacidade anaeróbica em cima da bicicleta. O mesmo acontece no levantamento 
de pesos, dependendo do tipo de música.

Redução 
do stresse – É comum haver música numa sala de operações. Acalma a equipa médica 
e parece também reduzir 
o stresse nos doentes. 
Em pessoas sujeitas a uma operação às cataratas (realizada com anestesia local), verificou-se que aquelas que tinham auscultadores nos ouvidos, com música da sua preferência, beneficiaram de uma diminuição da pressão arterial, antes, durante e até depois da intervenção.

Fonte: Harvard Medical School

Como a música atenua a dor

Um médico português fez um estudo com 180 doentes, sobre a dor aguda pós-operatória, concluindo que quem ouviu música da sua preferência tomou menos analgésicos

Talvez só mesmo um médico melómano se lançaria na empreitada inovadora de um estudo com 180 doentes, durante dois anos, para verificar a possível influência da música na redução da dor aguda pós-operatória. Esse médico existe, chama- -se Carlos Calado, tem 48 anos, é neurocirurgião no Hospital de São José, em Lisboa, e canta no Coro do Conservatório de Santarém. A pesquisa tornou-se uma bem-sucedida tese de doutoramento em Psicologia, em 2015, na UAL (Universidade Autónoma de Lisboa).

“Opero doentes quase todos os dias, os quais têm dor, o principal sintoma das patologias da coluna, em que intervenho muito”, explica Carlos Calado. Fazia, pois, sentido para o médico juntar duas das coisas que integram o seu quotidiano – uma que é objeto da Neurociência, a dor, e outra que lhe suscita paixão, a música.

Com muitas ajudas de gente entusiasmada, o neurocirurgião conseguiu reunir o consentimento de doentes suficientes para fazer o que queria: três grupos com 60 pacientes cada um. Por distribuição aleatória, através de sorteio, um grupo ouviu “música da sua preferência”, outro escutou “música relaxante” (incluindo trechos compostos só para o efeito pelo maestro Miguel Rijo) e, ao terceiro, o grupo de controlo, nenhuma obra foi disponibilizada. Por auscultadores ou auriculares, a audição restringiu-se a 48 horas (sem imposição de um tempo uniforme de escuta), depois de o doente passar para a enfermaria, após o recobro.

Primeira questão: a dor tem uma grandeza impossível de medir, ressalva Carlos Calado. “O que há é várias medidas de dor indiretas, sendo a mais fidedigna a dor autoavaliada, aquela que 
a pessoa sente”, explica 
o neurocirurgião. Para isso, foi usada a escala numérica da dor, que vai de zero a dez. Zero é a ausência total de dor e dez é a dor máxima. “Ainda assim, essa escala é subjetiva, porque é dada verbalmente pela pessoa”, acrescenta. Mas foram também utilizados outros índices de dor, como a toma de medicamentos, a frequência cardíaca das primeiras 48 horas após a cirurgia e a tensão arterial.

Urbanos vs. rurais

Na dor autoavaliada, não houve um claro efeito da música – que, no entanto, foi verificado na frequência cardíaca. “Se a considerarmos como um índice de dor, 
o resultado obtido foi bom”, avalia o médico. Isto é: na sua globalidade, os doentes que ouviram música tiveram frequências cardíacas mais baixas. Já na tensão arterial, não surgiram dados significativos.

Na toma de medicamentos, o resultado mais relevante foi obtido com os doentes que ouviram “música da sua preferência”. “Em média, em vez de dez tomas de medicamentos analgésicos nas primeiras 48 horas após a cirurgia, fizeram oito – menos duas, o que constitui um resultado significativo do ponto de vista estatístico”, destaca Carlos Calado, para acrescentar ter sido “muito curiosa” a “verificação de que as pessoas provenientes do meio urbano revelaram dados muito positivos com a música relaxante”. Houve aqui uma baixa marcada da frequência cardíaca e também da dor autoavaliada.

Nos doentes oriundos do meio rural, por outro lado, a música da preferência foi preponderante de forma clara. Por isso, Carlos Calado lançou na sua tese o conceito de “homeostasia musical”, segundo o qual uma pessoa ouve a música de que o seu organismo precisa. E a verdade é que, de acordo com os resultados do estudo, as pessoas do meio urbano, onde o stresse impera, demonstraram necessitar mais de música relaxante, e as do meio rural, daquela que sempre preferem.

O fator cognitivo já é outra coisa. E dele fala Isabel Lourenço, 56 anos, cuidadora de idosos, que foi operada à zona lombar e aceitou participar no estudo do neurocirurgião Carlos Calado, tendo integrado o grupo que ouviu música relaxante. “A música não nos tira a dor, mas é um ótimo complemento à medicação”, diz a paciente. “Por momentos, fechando os olhos, até me esquecia de que estava internada num hospital.”

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